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Promessa de Queiroga de vacinar 1 milhão por dia é realista, mas há pontos de incerteza, dizem médicos

SÃO PAULO — A promessa do novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, de vacinar 1 milhão de pessoas por dia para a Covid-19 implica mais do que triplicar o ritmo de vacinação que se vê em março. Segundo especialistas, o objetivo é razoável, porque o Brasil já conduziu campanhas em ritmo mais intenso, mas depende de as doses chegarem nas datas previstas, o que não tem ocorrido.

Se todas as vacinas elencadas no cronograma divulgado nesta semana forem entregues, em abril o Brasil passa a ter em estoque mais vacinas do que o necessário para manter esse ritmo de vacinação. Em outubro, já terão sido adquiridas doses para vacinar a população inteira. E, com 1 milhão de aplicações por dia, 75% da população será vacinada neste ano.

Os condicionantes para que esse plano se concretize, porém, são vários, afirmam especialistas consultados pelo GLOBO.

— O calendário tem coisas que não têm factibilidade — afirma a epidemiologista Carla Domingues, que coordenou o Programa Nacional de Imunizações (PNI). — Incluiu contratos que nem sequer tinham sido assinados e traz vacinas que ainda não têm registro na Anvisa.

Expectativa x realidade

O ministério, em documento divulgado há seis dias, incluiu no estoque previsto as vacinas Sputnik V e Precisa (Bharat Biotech), que ainda aguardam análise pelo órgão regulador.

Domingues afirma que ainda não está claro quando o Brasil começará a produzir o ingrediente ativo das duas vacinas que já estão sendo aplicadas (CoronaVac e Oxford/AstraZeneca), o que amplia a incerteza nas previsões do ministério.

— Estamos colocando expectativa num calendário que talvez não seja real — diz.

Para Isabella Ballalai, vice presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), apesar das incertezas, o plano parece mais realista do que quando foi divulgada sua primeira versão, em dezembro do ano passado, sem cronograma.

— Tem tudo para dar certo, mas não dá para desconsiderar atrasos, acidentes de percalço e as exigências que a Anvisa pode vir a fazer para registros das novas vacinas — afirma a médica.

Para Ballalai, é importante que aquilo que se inclui no plano sejam recursos já consolidados para que não seja necessário rever o cronograma toda semana.

— É uma responsabilidade muito grande do governo federal que a coisa seja realmente factível, porque isso impacta na confiança da população e dos gestores dos municípios, que fazem o planejamento na ponta do processo.

A previsão de entrega de vacinas até para abril, porém, já foi alterada várias vezes. Os 57 milhões de doses inicialmente previstos foram reduzidos a 47 milhões, depois para 38 milhões na última versão do cronograma (de 19 de março).

Na opinião do sanitarista José Cássio de Moraes, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, outro fator que inspira cautela é o cenário internacional de disputa por lotes de vacina, sobretudo para os produtos da Pfizer e da AstraZeneca.

— Eles têm uma briga na Europa, porque muitos países já compraram a vacina e eles não estão conseguindo entregar no prazo. No meio dessa disputa, o Brasil não vai ser uma prioridade — afirma.

A Índia, por exemplo, que produz insumo para a AstraZeneca e a Bharat, já anunciou que vai adiar alguns lotes de vacina destinados à exportação para acelerar sua vacinação doméstica.

— Este semestre vai ser complicado. Para o próximo existe perspectiva um pouco melhor — diz Moraes.

Gripe em paralelo

Apesar da incerteza, integrantes do governo se dizem confiantes com o fluxo de entrega, porque mais da metade do volume contratado vem da Fiocruz, que produz a vacina Oxford/AstraZeneca no país.

Ao menos para abril, a chegada de estoque para vacinar 1 milhão por dia parece certa. A vacinação efetiva das pessoas, porém, depende não só do estoque, mas de o PNI estar preparado para o fluxo. Será preciso organizar bem a vacinação da gripe, que a partir do mês que vem ocorrerá concomitantemente.

Com público alvo de 80 milhões de brasileiros numa campanha de 88 dias, a campanha da gripe pode requerer mobilização de mais infraestrutura e mão de obra para que o PNI dê conta das duas vacinações.

Uma das soluções para evitar atropelo foi a inclusão de crianças e gestantes no primeiro grupo alvo da campanha de gripe, para não haver sobreposição com os idosos que estão buscando a vacina de Covid-19 agora.

Para Moraes, da Santa Casa, a aplicação de até 2 milhões de vacinas por dia ainda é uma meta bastante razoável para o PNI.

— Se for articulada uma campanha com ajuda de pessoal para preencher papel, organizar fila e sobrecarregar menos quem está na sala de vacinação, podemos chegar até a 3 milhões de doses por dia. Já fizemos isso em outras campanhas — diz o sanitarista.

Fonte: O Globo


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